terça-feira , 23 outubro 2018

Temos que trazer o feito à responsabilidade histórica

Por Renato Carvalho*

O número 13 é cabalístico. No último dia 13 de dezembro, neste ano de 2015, completou-se 13 anos de um ciclo histórico que trouxe o Partido dos Trabalhadores (13) à presidência da República Federativa do Brasil.

Em 513 anos de história de nosso país, do descobrimento e da colonização até o presente momento, absolutamente, foi a primeira vez que uma organização política vinculada às causas dos setores populares e médios consegue obter tal magnitude de poder. Daí, a maior responsabilidade histórica pelos erros e acertos.

Em nosso país as mudanças promovidas sempre ocorreram mediante pacto das elites sob a lógica de “mudar para manter como está”, ou seja, o privilégio histórico adquirido por uma elite dominante que desde sempre foi beneficária das estruturas estatais implantadas no Brasil.

Neste mesmo período histórico, os setores populares sempre foram alijados do benefício que o estado brasileiro proporcionou à elite. Este alijamento gerou favelas, fomes, migrações e causou grande desconforto para milhões de famílias num vexame de divisão social flagrante no país. Divisão esta que sempre foi notória ao longo de toda nossa história pátria.

A chegada do PT no aparelho executivo do estado brasileiro desarrumou o pacto das elites nos moldes que sempre foi praticado no país. Verdadeiro “vírus no sistema”, ou seja, embaralha arranjos consolidados e exige realinhamentos políticos de parte-a-parte.

A inescapável necessidade de garantir sua governabilidade e governança fez com que os sucessivos últimos governos do PT promovessem alianças políticas e empresariais visíveis.

Também, promoveram o incentivo e apoio à participação popular de modo inaudito a ponto de como nunca antes os trabalhadores e trabalhadoras de todos os segmentos terem tido a capacidade de influenciar os rumos do governo federal, no caso os petistas, como agora se faz presente. Mas, há limites estruturais (não observados, diga-se de passagem).

As meras ações institucionais, mesmo as que apelam para os chamados “marcos regulatórios”, até pelo curto tempo da experiência, não conseguem alterar estruturas enrijecidas que operam o ESTADO BRASILEIRO, este sim o real detentor de poder.

Não fora tudo isto, a longeva condição de detentor do estado brasileiro (a elite dominante e seus associados e servidores) já se encontram de tal modo arraigados nas entranhas do ESTADO que a network instalada é tão mais eficiente em favor do que se considera o inquilino natural (os mandatários das elites) que são capazes de modo “natural” desmontarem em favor dos de sempre, mudanças que se queira promover nas estruturais de comando do país.

Um exemplo maior disto foi o fato de que os governos petistas atraíram (corretamente) setores empresariais para uma relação mais estreita com seus governos, sobretudo e principalmente àquelas empresas que sempre operaram mediante as políticas públicas de investimento estatal (as empreiteiras, o agronegócio, por exemplo).

Este realinhamento de setores empresarias com os governos petistas (para surpresa de todos, inclusive os próprios petistas e movimentos sociais “mais puros”) desencadeou o processo de busca dos outros segmentos não alinhados ao PT, mas não menos beneficiários das políticas econômicas (setor financeiro, sobretudo), a encontrarem o elo frágil e partir esta nova corrente político-empresarial-social engendrada.
Encontraram este erro no próprio sistema que criaram e sempre os beneficiou infinitamente, até enquanto não chegou o governo petista: a relação governo-parlamento.

Então, cientes do sistema que criaram e dos quais eram fieis mantenedores, posto que beneficiavam de fastio a alta burguesia e associados, este setores dominantes-beneficiários, mas não alinhados ao PT operaram numa tática de 4 eficientes tempos (todas já arquitetadas e com engenheiros construindo-as):

1ª. Desmoralizar dirigentes maiores do PT para bloquear seus poderes e influências desde o aparelho governamental federal do estado brasileiro;

2ª. Desacreditar a agremiação política portentosa que se tornou o PT, promovendo o afastamento da opinião pública em relação ao partido que sempre foi portador da esperança-crítica na perspectiva de uma nova sociedade. Uma da mais eficientes táticas de guerra, antes mesmo de um só disparo ser efetuado, é desacreditar o inimigo para torná-lo “matável” no jargão do filósofo italiano Giorgio Agamben;

3ª. Tirar a fonte de suprimento e poder reprodutor de política que o PT construiu estando no governo federal. Assim, tirar Dilma hoje, Lula amanhã, não é uma questão conjuntural como creem alguns tolos. É uma posição de classe; dizem assim a alta burguesia: “não foi dos nossos, não interessa sua honestidade e que até continuem a nos beneficiar. Tirem-no, a todo modo e custo”;

4º. Esta última tática é/foi um golpe mortal na classe e/ou segmentos de classe que sempre foi a base de massa do PT. Neste caso se aplicou a medida da PL 4330 e não por acaso serviu o Cunha para encaixar esta cunha na classe trabalhadora que ante esta medida desagrega enfraquecedoramente sua representação que antes, mesmo problemática, era relativamente unitária.

Então, resta provado que a alta burguesia e associados (incluída a direita) sabe que sua esperança-cínica lhes permite jogar sobre os ombros do PT e seus associados (movimentos sociais os mais diversos) todas as mazelas que foram resultante de 513 anos de sua infame e nefasta dominação que a um só tempo lhes  benefíciou e em sentido diametralmente oposto, deliberadamente, promoveu e manteve uma brutal exclusão social e econômica de amplíssimas parcelas da sociedade, tentado com relativo êxito, mudar tudo isto pelo PT.

Por fim, a alta burguesia tenta ser até ironicamente bíblica: quer jogar todos os pecados no PT como se ele fora o diabo-criador deles, ou seja, “tratar o PT como a manada de porcos citados na bíblia, em cujas costas foram jogados todos os pecados de todos para estes serem purificados”. Renê Girard explica esta situação em seu livro A Violência e o Sagrado.

Definitivamente, é completamente inaceitável esta situação. Foram 513 anos de dominação do capital no Brasil e não são os 13 anos do PT(13) que geraram as distorções no sistema político e relações de poder no país.

Quem pariu Mateus que o balance. Temos que trazer o feito à responsabilidade histórica.

 

Recife, Domingo, 13 de Dezembro de 2015.

*Renato Carvalho
Coordenação Nacional da Via Trabalho
Secretário Estadual da Secretaria Agrária do PT