segunda-feira , 17 junho 2019

Balanço deste carnaval

Por Júnior Afro *

De Olho no Carnaval

Desde sempre o carnaval é espaço aberto para expressar nossas ideias, indignações, nossa ousadia, nossas visões de mundo, um fenômeno mundial da festa. Nossa experiência brasileira de carnaval não poderia ser diferente. No estado de Pernambuco em especial, manifestações culturais se mostram capazes de através da música, da estética, de sua organização, dizer para o mundo o que pensam sobre a vida política do pais, seus desejos e expectativas de viver numa sociedade justa.

Diante do quadro político atual, é imperativo fazer um balanço do que foi o carnaval 2019, suas manifestações de repúdio ao governo atual, suas tradições oriundas das lutas negras e populares, as políticas públicas para a cultura carnavalesca, a luta por democracia presente no carnaval e os territórios da festa e da resistência popular.

Em primeiro lugar, é necessário refletir sobre tal diversidade presente na festa e reconhecer que apesar da reconhecida diversidade cultural presente no carnaval pernambucano onde temos a grata satisfação de vivenciar e apreciar Afoxés, Blocos Afro, Escolas de Samba, Bois, Ursos, clubes, troças, maracatus, outras expressões, O Maracatu e o Frevo são considerados manifestações ícones e representativas da cultura local. É certo que cada uma dessas manifestações carrega histórias de comunidades, grupos sociais, categoria de trabalhadores e até lutas históricas de povos que encontram no carnaval um momento para se expressarem.

Tiro aqui o chapéu para cada uma dessas manifestações de nossa cultura popular e chamo o dialogo a partir de duas de nossas manifestações, Frevo e Maracatu Nação, que nos convidam a nos reconhecer como pessoas com identidade cultural e a fortalecer a luta mesmo durante a festa.

Manifestação secular, o maracatu de baque virado (nação), remonta a história e representa a organização da população negra como Nação (de candomblé), ou povo de matriz africana e elementos indígenas. Sua musica, seu batuque, traz para o desfile, a força das tradições culturais de descendentes de africanos escravizados no Brasil que utilizam a manifestação cultural como forma de afirmar-se e promover sua dignidade. O Maracatu traz uma estética que o define, sobretudo quando apresenta a possibilidade de um Rei e Rainha negros, e em suas vestes a brincadeira com os excessos do estilo Luiz XIV e XV no calor do trópico.

A luta e a organização dos trabalhadores urbanos estão expressas nas agremiações de Frevo dede sua criação, o Clube Vassourinhas, os Lenhadores, o Clube das Pás, são exemplos de como o frevo nasce com identidade de organização de categorias de trabalhadores, como a agremiação configura um espaço de expressão do desejo de organização da classe nos pós abolição, antes do nascimento dos sindicatos brasileiros.

Não é por acaso que, é a musica do frevo que embala os diversos grupos, clubes e troças que tradicionalmente traduzem os momentos de nossa política, como é o caso do Empatando Minha Vista que sofreu represália do governo local. E quantas canções trazem para o carnaval a expressão do pensamento de grupos irreverentes que reúnem pessoas ligadas ao pensamento de mudança social, ou de esquerda como é o caso do Eu Acho é pouco de Olinda, que não é uma troça de partido político mas nasce de encontros de pessoas que inseridas na luta por vida melhor para a maioria da população. O frevo também é o preferido dos “blocos” criados para questionar ações políticas ou grupos de partidos que não abrem mão de utilizar o carnaval como momento adequado para levar a um grande numero de pessoas suas mensagens.

Apesar de muitas das antigas agremiações carnavalescas de frevo terem se distanciado do seu tema original, tais grupos mantem viva uma história e referências através do nome. E fortalece a ação de cada um de nós que cotidianamente defendemos a inclusão social, a igualdade de direitos e a vida digna para todos e todas, e assumimos a defesa e de políticas que valorizem as manifestações carnavalescas.

O carnaval de 2019 foi especial. Indignados com o retrocesso nas políticas, o segmento da cultura promoveu um movimento de reação ao golpe político, jurídico, midiático, iniciado em 2016 onde o segmento da cultura tem sido desrespeitado, perseguido, criminalizado, as políticas para a cultura enfrentado retrocessos, e desmonte. O Plano e o Sistema Nacional de Cultura desconsiderados e o Ministério da Cultura extinto.

As reações vieram fortes no período carnavalesco. Foram vários os encontros, debates e festividades nas agremiações e coletivos culturais, quase que de forma espontânea, vivemos um movimento de resistência que se refletiu nas fachadas das casas de Recife e de Olinda com bandeiras de Lula Livre e nas ruas com as modinhas que superaram “é Jeniffer” por: “ai, ai, ai, Bolsonaro é o Caraí! As orquestras de frevo e as agremiações foram fundamentais para contagiar o público.

O compromisso político com a alegria e irreverência do carnaval esteve presente nos desfiles do Sapo Barbudo, Bovoá Com Elas, Feitiço da Estrela, Ursene,  Arrebenta Sapucaia,  Bota a Cara no Sol, Fantasmas do Comunismo, Bloco do Pre-sal, Azougue, Cachorro Teimoso, Dente de Leite, Aratu Vermelho, Eu Bem que Avisei, no Bloco da Diversidade, no Eu Acho é Pouco, no Amantes da Gloria, no Escuta Levino, no encontro de boizinhos, no Bloco do Nada, no Subo mas não desço, na saída do homem da meia noite, no Blocão da Democracia, no Bloco do MST. No desfile dos Maracatus, no Polo Afro, na Noite dos Tambores Silenciosos (de Recife e de Olinda), no Galo da Madrugada. Em qualquer lugar que estávamos vimos expressar nossa indignação por corrigir as injustiças sócias e a palavra de ordem desse carnaval foi Lula Livre Já.

Nos últimos anos, a experiência vivida pela esquerda brasileira na construção de políticas culturais no Brasil, que impulsionou um movimento de valorização das manifestações culturais carnavalescas através de políticas públicas específicas. O programa Cultura Viva (pontos de cultura), os programas de valorização do patrimônio cultura imaterial, os editais afirmativos e as políticas para a diversidade cultural são exemplos de políticas e programas que valorizaram e valorizam as manifestações carnavalescas no âmbito nacional.

Nenhum retrocesso das políticas fez desanimar e enfraquecer as expressões carnavalescas e sua característica de espontaneidade, ousadia, denuncia, irreverencia. Assim, o espirito de denúncia das injustiças promovidas pelo golpe, a prisão de Lula e o assassinato da vereadora Marielle Franco foram temas constantes no carnaval em várias cidades brasileiras.

Nos chama atenção no carnaval, o papel exercido pelas escolas de samba do Rio e São Paulo com temas importantes como foi o caso da Mangueira, uma escola de samba tradicional com acesso a grande mídia, que homenageou os heróis da história da resistência como Zumbi, Dandara, Aqualtune, Akotirene, Luiz Gama, Luiz Mahim, Tereza de Benguela, entre outros. Por fim, as bandeiras de Marielle Franco, questionou o fato da polícia não solucionar um caso tão grave de violação de direitos humanos.

No âmbito local, as políticas de atenção as culturas populares se consolidaram através dos planos municipais (Recife e Olinda), e no plano estadual de cultura. Influenciados pelos retrocessos nacionais, as políticas locais também sofrem. Tal retrocesso se concretiza no desmonte de ações afirmativas na cultura e na falta de visibilidade a grupos tradicionais. No Recife, a precariedade e a invisibilidade do Bairro tradicional de São José é a fotografia do desrespeito a história e cultura local. Pátio de São Pedro, Pátio do Terço, Dantas Barreto, redutos da cultura popular carnavalesca precisam de atenção especial. Cuidar do bairro do Recife como espaço turístico não pode eliminar o outro lado da ponte.

Outro aspecto importante a ser revisto no carnaval de Recife e Olinda são as festas in door, as quais de alguma forma privatiza o carnaval, disponibilizando espaços públicos para festas particulares e implantando uma pretensa segurança dos brincantes. Pelo menos para Recife, ano de revisão do Plano Municipal de Cultura, o momento é importante para debater essas políticas.

Dispostos a seguir resistindo, nós que somos brincantes e políticos defendemos a importância das políticas menos eventuais e mais estruturadoras para os grupos populares e tradicionais. Defendemos que no processo de preparação da festa o poder público fortaleça as sedes dos grupos culturais e sua organização comunitária, prepare a cidade com uma infraestrutura capaz de valorizar os espaços e bairros tradicionais, e durante as festas populares, é necessário que nossa criatividade e irreverência esteja sempre afirmada, disposta a defender a vida, combater a violência, enfrentar as expressões do racismo, do machismo, da xenofobia, da homofobia, da lesbofobia e da transfobia.

Lindivaldo Junior Afro*
Secretário Estadual de Cultura do PT
Recife, março 2019.